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Vinte e oito motivos para odiar futebol

Genial! Mais um texto do Blog do Torero:

Por José Roberto Torero

Estava chegando ao estádio e vi Marcio, com má cara, pagando dez reais para o guardador de carros. Teté, por sua vez, tirava o cocô de um cavalo da polícia de seu sapato. Na bilheteria, notei David reclamando de um daqueles garotos que ficam pedindo dinheiro para comprar ingresso. À sua frente, Eduardo, vermelho de raiva, brigava com um bilheteiro que lhe dizia que a meia entrada já havia acabado.

Depois, na fila para entrar, ouvi Luís Antonio dizendo que a coisa que mais odeia nos jogos de futebol são as filas: a fila para o estacionamento, a fila para comprar o ingresso, a fila para entrar no estádio, a fila para ir ao banheiro, a fila da lanchonete, a fila para ir embora do estádio e o “fila” da puta do juiz que sempre rouba o time dele.

Um pouco antes da catraca topei com Cleberson, que estava na posição de Cristo, com um PM a apalpá-lo. Dava para ouvi-lo pensar: “Por que não colocam belas garotas para fazer este trabalho?”

Lá dentro passei por Ivan, que tampava os ouvidos para não escutar o axé tocado pela torcida organizada, por Thiago, que cobria as orelhas para não ouvir os gritos histéricos de uma torcedora, e por Cássio, que colocou seu walk-man para abafar as buzinas de caminhões trazidas por alguns torcedores. Já o Paulo César reclamava de outro som: “Para que tocar o hino se ninguém presta atenção?”

Leonardo olhava para os céus pedindo paciência cada vez que um puxador de torcida organizada gritava: “Vamos cantaaaar! A Geral tá calaaaada!”. Já Ronaldo implicava com um cara que tentava aparecer na tevê levantando um cartaz à sua frente.

O jogo estava tenso e por conta disso alguém fumava perto de Maria Augusta, que, apenas metaforicamente, soltava fogo pelas ventas. Sérgio sofria ainda mais, porque perto dele alguém tragava um cigarro de maconha e ele já se via explicando para a mulher que aquele cheiro não era o que ela estava pensando.

Quando saiu o gol, Wender sentiu um certo nojo ao ser abraçado por um monte de marmanjos barbados e suados. Ruy teve que agüentar um bêbado vibrando em sua orelha enquanto Harald xingava  uma bandeira aberta pela torcida que lhe cobria toda a comemoração do gol.

Falando em atrapalhar a visão, reparei que Luís olhava com ódio para uma grua da Globo bem à sua frente e Samuel não conseguia tirar os olhos de uma boazuda. “Só pode trazer mulher bonita em jogo ruim”, dizia ele entre os dentes.

No intervalo, Marcos ficou os quinze minutos na fila do banheiro para um splash and go. Rogério, por sua vez, explicava às duas filhas que elas não podiam tomar refrigerante porque não dava para levá-las ao banheiro.

Na segundo tempo, Luciano irritou-se com a torcida vaiando seu próprio time. Rômulo, como tantos outros, teve vontade de esganar um cara ao seu lado que a todo ataque gritava “Gol!”. E Roberto estava fulo da vida com um torcedor-comentarista que pensava ter decifrado todos os mistérios sobre os jogadores e o jogo.

Como um ímã, a cabeça de Adelson recebeu mais um copinho. Para não ficar ainda com mais raiva, ele preferiu acreditar que se tratava de cerveja. Já João sentia-se desapontado: comprou um daqueles canudinhos doces e mais uma vez descobriu que só havia recheio nas pontas.

Dennis, que estava sentado, dava bronca em quem ficava de pé. André, que estava em pé, dava bronca nos torcedores que ficavam sentados.
E, finalmente, quando o jogo acabou, Ângelo teve ódio do congestionamento que pegou na volta para casa.

Vi essas vinte e oito pessoas sentindo raiva de ver uma partida no estádio.

E tenho certeza que as verei no próximo jogo.

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